- abril 16, 2020
- Postado por: Rafael Kosoniscs
- Category: Guia para a inclusão da Pessoa com Deficiência
A falta de oportunidades de convivência com pessoas com deficiência acaba por gerar mitos e preconceitos sobre a melhor maneira de relacionar-se com elas. Para isso não existem receitas, visto que nas relações humanas não cabem regras pautadas em homogeneidade de atitudes. Entretanto, o conhecimento de referências básicas, no que se refere à acessibilidade arquitetônica e à atitudinal, pode contribuir muito para a melhoria da qualidade do relacionamento entre indivíduos com e sem deficiência.
É importante ressaltar que, antes de qualquer coisa, podemos indagar para a pessoa com deficiência sobre a necessidade de ajuda. É a melhor prática para não se incorrer no risco de tomar atitudes deselegantes, constrangedoras ou discriminatórias. As pessoas com deficiência que se integraram no cotidiano da sociedade mantém sua independência social e autonomia e aprenderam a enfrentar os obstáculos no dia a dia.
Conheça algumas orientações básicas para um convívio integra – do com pessoas com deficiência.
Fonte: Superintendência Estadual de Apoio à Pessoa Portadora de Deficiência – Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Social de Pernambuco. Folheto: “Dicas para uma Convivência sem Preconceito”
Pessoa com deficiência física
A cadeira é parte integrante do espaço corporal da pessoa com deficiência e deve-se cuidar para não tocá-la sem prévia autorização ou utilizá-la como apoio. No caso de necessidade de ajuda, peça orientação sobre a melhor forma de fazê-lo.
É importante observar a organização dos locais por onde transitam cadeiras de roda, pois entulho, disposição de móveis, entre outras questões, dificultam o acesso.
Quando houver a necessidade de auxílio em locais que tenham rampas com inclinação acentuada faça-o com a cadeira em marcha à ré. Este procedimento evitará que a pessoa perca o equilíbrio e sofra uma queda.
Quando conversar por um tempo prolongado com uma pessoa em cadeira de rodas procure sentar-se, para evitar incômodos para ambos.
Cotidianamente usamos palavras e expressões do tipo, “por onde você andava”, caminhar, “vamos nos acomodar”, entre outras. As pessoas com deficiência em cadeira de rodas também as utilizam.
Procure informar-se antecipadamente sobre a acessibilidade dos locais que pretende frequentar na companhia de pessoa em cadeira de rodas.
Ao caminhar, procure acompanhar o ritmo das pessoas que utilizam próteses ou muletas.
Caso seja solicitado a guardar muletas, bengalas ou outros recursos não os posicione longe do usuário. Não diga nem escreva: aleijado; defeituoso; paralítico; pessoa presa, confinada, condenada a uma cadeira de rodas ou muletas.
Diga e escreva: pessoa com deficiência física; ele teve paralisia infantil; ele está com sequela de paralisia infantil; pessoa em cadeira de rodas; pessoa que anda em cadeira de rodas ou com muletas; pessoa que usa cadeira de rodas ou muletas.
Pessoa com deficiência visual
Identifique-se à pessoa quando aproximar-se, deixando claro que está falando com ela.
Ofereça seu braço para guiá-la, não a puxe pela mão ou braço, pois isso tira-lhe a possibilidade de acompanhar os movimentos do seu corpo, dificultando, assim, a percepção de obstáculos deixando -a insegura.
Quando for sentar-se, posicione as mãos da pessoa com deficiência visual sobre o braço ou encosto da cadeira.
Quando for afastar-se, comunique à pessoa para que ela saiba que ficará sozinha. Expressões como “olha”, “você é uma pessoa de visão” são utilizadas no cotidiano de todas as pessoas, inclusive de pessoas com deficiência visual e pessoas com baixa visão. É bom saber que nem sempre as pessoas com deficiência visual necessitam de ajuda para locomover-se.
Não diga nem escreva: ceguinho; ela é cega, mas mora sozinha. Diga e escreva: pessoa cega; pessoa com deficiência visual.
Pessoa com deficiência auditiva
Fale sempre de frente para a pessoa, para que ela possa observar a articulação de seus lábios.
Procure falar com clareza, articulando as palavras, mantendo o ritmo normal. Caso a pessoa não entenda, solicitará que você repita pausadamente a informação. Não utilize recursos como “psiu”, “estalar de dedos”, para chamar a atenção da pessoa com deficiência auditiva. Caso seja necessário, toque no braço dela, de leve.
O ato de falar deve ser acompanhado com expressividade, pois a leitura de lábios não identifica sentimentos.
Não diga nem escreva: mudinho; surdo-mudo. Diga e escreva: pessoa surda; pessoa com deficiência auditiva.
Pessoa com deficiência intelectual
Seja claro ao transmitir informações, não deixando nada subentendido ou em entrelinhas.
Trate-a de acordo com sua idade, evitando um comportamento infantilizado no trato com adolescentes ou adultos com deficiência intelectual.
Não subestime sua capacidade de aprender.
Não as ignore, trate-as com naturalidade. Não diga, nem escreva: bobinho; doentinho; doidinho; retardado; excepcional; doença mental; retardado mental; mongoloide; mongol; ele é retardado mental, mas é um atleta excepcional.
Diga e escreva: pessoa com deficiência intelectual; deficiência intelectual; pessoa com Síndrome de Down; ele tem deficiência e se destaca como atleta.
Pessoa com deficiência psicossocial
A deficiência psicossocial é também chamada “deficiência psiquiátrica” ou “deficiência por saúde mental”. Ela foi incluída no rol de deficiências pela Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD), o que representa uma conquista das próprias pes – soas (PcDP), familiares, amigos, usuários e trabalhadores da saúde mental, provedores de serviços de reabilitação física ou profissional, pesquisadores, ativistas do movimento de vida independente e simpatizantes. Desta forma, pela primeira vez na história dos Direitos Humanos pessoas do campo da saúde mental e pessoas do campo das deficiências trabalharam juntas em torno do mesmo objetivo: a elaboração da Convenção (Sassaki, 2010).
O termo “pessoa com deficiência psicossocial” (PcDP) é relativa – mente novo, quase contemporâneo do nome anterior “pessoa com deficiência psiquiátrica”. Mas estas pessoas já se organizavam em grupos de autoajuda na década de 50, quando eram chamadas “expacientes psiquiátricos”. Na década de 80, consideravam-se “sobreviventes da saúde mental” (ou “sobreviventes da psiquiatria”) e começaram a se chamar “deficientes psiquiátricos”.
Segundo observa Julliane Quevedo de Moura, no trabalho “Ava – liação de um programa de inclusão laboral para pessoas com deficiência psicossocial” (2012)
O termo “deficiência psicossocial” tem sido usado muito recente – mente para designar as limitações funcionais de indivíduos que apre – sentam transtornos mentais de longa evolução como, por exemplo, a esquizofrenia.
A compreensão deste fenômeno tem permitido que pessoas com estas deficiências possam se beneficiar da Lei de Cotas para inclusão no mercado de trabalho. Esse movimento, no entanto, é ainda muito incipiente no Brasil. Iniciativas de emprego apoiado, protegido e inclusão laboral para pessoas com doenças mentais ainda são experiências isoladas e heroicas.
A deficiência psicossocial não consta da legislação referente à Lei de Cotas (Decretos nº 3.298/99 e nº 5.296/04), pois foi considerada como pertencendo à área da deficiência somente após a promulgação da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que é de 2006. Isso explica a observação acima, da pesquisadora Julliane Quevedo de Moura.
Ainda segundo Romeu Sassaki, a deficiência psicossocial pode ser assim caracterizada:
• Dificuldade de aprender, não causada por fatores intelectuais, visuais, auditivos ou de saúde.
• Dificuldade de fazer e manter bom relacionamento com colegas e professores ou chefes.
• Comportamentos e sentimentos inadequados sob circunstâncias normais.
• Estado geral de infelicidade ou depressão.
• Tendência a desenvolver sintomas físicos associados com problemas pessoais, escolares ou profissionais.